
Em um concurso que fiz há um ou dois meses vi esse texto e achei interessante... Interessante a forma da personagem falar sobre a saudade que sente de sua senhora, de forma a apresentar alguns desleixos domésticos para demonstrar que está sentindo falta dela, sua senhora... Texto de Dalton Trevisan, entitulado como Apelo.
"Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.
Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor."
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É tão ruim ver que é verdade tudo o que falavam pra mim e que eu sempre contrariava... E outras coisas que via, mas não queria acreditar... Sempre dando uma desculpa a mais por cada descuido para comigo, para cada feridinha aberta...
3 comentários:
acaso ou descaso?
:*:
Muito boa pergunta.
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